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Editorial
O dia amanheceu quase turvo, um céu meio intermitente entre azul e cinzento.Apesar de estarmos no pino de Agosto, o Verão continuava sem nos visitar em todo o seu esplendor – talvezpor respeito àqueles pouco habituados ao calor, a verdade é que quase ninguém pôde experimentar na alma a intensidade daquele azul que é só nosso, daquele céu que só existe em Portugal… Apesar disso, havia um estremecer lento no ar que mantinha os corações expectantes. Naquele dia, os sorrisos foram chegando, a pouco e pouco, à mistura com abraços carinhosos. As palavras eram as que serviam –graças a Deus, a linguagem é uma coisa bem mais ampla que as línguas e há alturas em que a distância é apenas um conceito da Física mas não da alma.
Aquele 17 de Agosto foi um dia desses. 600 pessoas sentadas em fardos de palha celebrando a Eucaristia numa atmosfera de total serenidade, com uma alegria mansa mas tão profunda. Parecia que estivéramos sempre ali, partilhando sorrisos e silêncios com todos e cada um, como se nos conhecêssemos desde sempre, como se não precisássemos mais de quebrar barreiras. Como Jesus com a Cananeia – estrangeira sim, mas subitamente próxima, incontornável. Diferenças: sim, claro, os olhos, as cores, os cabelos, os trajes; mas muito mais poderosas que as diferenças são as nossas pequenas e grandes histórias individuais e comunitárias lidas em comum à luz do Espírito, corações movidos pelo desejo de ser companheiros d’Esse que Se fez Homem para nos ensinar a construir Reinos de Bem e de Verdade, sempre guiados pela busca do Bem Maior. Parecia que estávamos em casa, no nosso recanto preferido, talvez aninhados no sofá à conversa com quem nos quer bem. É bom demais sabermo-nos em casa, de quando em vez. Depois desta Assembleia Mundial, com os olhos cheios de luz e o coração consolado por tanto bem recebido, salta-nos dos lábios a pergunta: Que fizemos? Que fazemos? Que faremos?
Carla Rebelo
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